Z.Preisner (1955 - ) – Requiem for my friend, Rewakowicz, Kasprzyk, Sinfonia Varsovia.
Caros leitores, anunciei Preisner e estou a cumprir com o prometido. Porém, um breve excurso: tal como o meu amigo e colega FDP Bach, ando descontente com certos comentários proferidos no blog; a esses comentários, faço minhas as palavras do nobre colega: a minha colaboração é feita no sentido de divulgar uma paixão que – tal como os meus cinco quatro colegas, já para não mencionar esse grande cão, Blue Dog… – nutro, a música clássica, nas suas vertentes de erudita e contemporânea.
Uma segunda razão está na origem da minha colaboração com este blog: como portuguesa, é sempre bom o motivo que possa comprimir e estreitar os laços de dois povos separados pelo ingente oceano Atlântico. Se é verdade que temos motivos para nos orgulharmos com a receptividade do blog no Brasil – neste momento, contabiliza-se 60.000 acessos, certamente contamos com a presença de muitos bloggers portugueses que também fazem questão de visitar o PQP, dada a sua qualidade. E os links que o PQP ostenta nalguns blogs portugueses também são um cabal e indefectível facto de júbilo.
Recentemente, ouvi uma grande actriz brasileira, Natália Thimberg, afirmar que Brasil e Portugal são um só: Falamos a mesma língua, somos da mesma escola, afirmava a veterana actriz.
Por isso, ilustres visitantes, este trabalho é feito, altruisticamente, em nome de uma paixão, a música, sem nenhum dividendo; tendo em conta esse facto, também os nossos comentários reflectem e reflectirão sempre os nossos afectos pela plêiade de compositores dilectos (ou não), mas não somos engenheiros de almas, como aventava Estaline sobre a missão dos escritores – os nossos escritos não são tecnicistas, mas sempre e apaixonadamente amadores. Disse.
Já falei num ingrediente necessário para se entender a música dos polacos: o misticismo e a religiosidade que caracterizam este povo, não? Preisner não é excepção, mas, por’ora, quero elencar (santo deus, este verbo parece que é de minha propriedade!) alguns dados contextuais, que estão na génese da minha descoberta de Preisner.
Polónia, terra de surpreendentes contrastes: tutelada por duas potências dois blocos, ex aequo, União Soviética e Alemanha (e mesmo hodiernamente, pós-integração na União Europeia, não escamoteemos esse tão impolítico, mas correcto facto!), foi pátria fértil de artistas que adoro, especificamente, no cinema, com Wadja e Kieslowski.
Kieslowski foi uma descoberta dos meus 17 anos, com a sua – hoje – consensual trilogia Bleu, Blanc, Rouge, uma homenagem aos ideais republicanos franceses e que (parte de supremíssima inportância para o público masculino) revelou ou consolidou ícones dramáticos femininos como Juliette Binoche e Irène Jacob (quanto a mim, plástica e dramaticamente superior a Binoche, mas you’re the boss, preclaro público). O impacto desse realizador foi de tal sorte grande na minha pessoa que, recorrendo a um esquema de des-va-lo-ri-za-ção do meu capital de então, adquiri os três filmes, importando os mesmos de França, na defunta versão VHS… estando os mesmos ainda em cartaz!
Z. Preisner consegue, a meu ver, matar “três coelhos com uma só cajadada” (olhem só a subtileza das minhas metáforas, alicerçadas em ditos populares…), com esta obra:
a) Exprimir o sentimento de religiosidade/misticismo que é o ADN do imaginário polaco, lui – même, – e isso está patente na própria estrutura e função que preside ao Requiem;
b) Fazer uma síntese de uma genealogia, de uma brilhante genealogia, da sua genealogia musical polaca e não só, transmitindo para a sua obra a influência flagrante de Gorécki,, visível nas duas versões da Lacrimosa, de Pendérecki – notem bem o violino arrepiante do Offertorium e até do meu Rasputine musical, Pärt, nos sinos do mesmo Offertorium e ecos da Berliner Messe, em Dies Irae;
c) oferecer um tributo que se nega a tributo a Kieslowski, com a primeira parte, o Requiem per si, - ah, sim, o piano e a flauta de Kai Kairos a evocar a dita trilogia – e a segunda parte, “Life”, a assegurar os lçaos indestrutíveis (ou parceria indestrutível) entre os dois amigos.
Z.Preisner (1955 - ) – Requiem for my friend, Rewakowicz, Kasprzyk, Sinfonia Varsovia, Varsóvia: Erato, 1999.
1. Part One Requem: Officium
2. Part One Requem: Kyrie Eleison
3. Part One Requem: Dies Irae
4. Part One Requem: Offertorium
5. Part One Requem: Sanctus
6. Part One Requem: Agnus Dei
7. Part One Requem: Lux Aeterna
8. Part One Requem: Lacrimosa
9. Part One Requem: Epitaphium
10. Part Two Life: Meeting
11. Part Two Life: Discovering The World
12. Part Two Life: Love
13. Part Two Life: Kai Kairos
14. Part Two Life: Ascende Huc
15. Part Two Life: Veni Et Vidi
16. Part Two Life: Qui Erat Et Qui Est
17. Part Two Life: Lacrimosa - Day Of Tears
18. Part Two Life: Prayer
Clara Schumann
outubro 5th, 2008 às 21:24
Cara Clara Schumann
tenho esse cd a pelo menos três anos. É uma maravilha ao espírito humano. Uma preciosidade contemporânea que nos edifica, enquanto seres humanos ou amantes da cinematografia sensível e sempre recorrente de Kieslowski. Agradeço-a por ajudar a divulgar mais essa obra que ao nosso ver é fundamental.
Dr. Cravinhos
outubro 5th, 2008 às 21:41
Dr. Cravinhos,
De nada: cmo sabe, eu gosto dos compositores contemporâneos polacos…de quase todos (pq diabo terei falado positivamente bem de Pendérecki? :P)
Abraços.
outubro 6th, 2008 às 8:02
Belo comentário, Clara. Foste correta inclusive na “falha” de elogiar Pendérecki. Um pequeno equívoco na questão sobre Binoche x Jacob, porém quem é perfeito…??
Achei curioso que tivesses citado Stálin (ou Estaline). No Brasil, poucos ousariam citar dele algo que não fosse torturas, assassinatos e políticas equivocadas. Tudo isso é verdade, só que Stálin também era um bom autor de frases e expressões, tais como qualificar a ópera de Shostakovich Lady Macbeth de Mzenski de uma “pornofonia”.
Foi um belo retorno.
Despeço-me aguardando uma vitória do Benfica hoje à noite e mandando bons augúrios a teu sumido Boavista.
Beijo.
outubro 6th, 2008 às 8:03
Clara.
Sobre os poloneses, é aquilo que falava sobre Kilar: deve ser a água do Báltico.
outubro 6th, 2008 às 11:32
PQP,
É engraçado, pq eu tb detesto Staline, ou “papá” estaline, cmo diriam os russos dos anos 40… Mas o facto é q era um grande manipulador da palavra e esta frase marcou a estética do realismo socialista…
(uma adenda: eu detesto todo o tipo de ditadores, seja qual for a sua estirpe - Fidel Castro,Mao Tse Tung, Estaline,Franco,Hitler, Mussolini, Pinochet, Trujillo,etc…além de Chavez, eheheh!)
Bjs
outubro 6th, 2008 às 13:47
Não sei o que falam de mal desse bog. Oque eu tenho à dizer é ele mudou a minha vida. Conhecer as cantatas de Bach já foi um achado que mudou minha vida para sempre. Eu devo essa pra vocês. Eu não sei nem como agradecer. Eu esperava um dia em que eu estivesse mais inspirado pra escrever mas não deu. Taí o meu depoimento. Um grande abraço a todos.
Carlos
outubro 6th, 2008 às 22:41
Carlos,mto obrigada!
outubro 6th, 2008 às 22:52
Desconheço o teor dos comentários, mas garanto que, apesar de ser Gardel, sou brasileiro, e profundo admirador dos portugueses (e portuguesas, principalmente).
Leio sempre com prazer as contribuições escritas de Clara Schumann a este blog, que muito o enriquecem.
outubro 6th, 2008 às 23:21
SoyGardel,
Esta portuguesa não sabe dançar o tango,mas agradece-lhe vivamente o elogio.
abraço.
outubro 7th, 2008 às 10:38
Eu não sei o que leva alguns a criticar o trabalho deste blog.
Estes insatisfeitos, melhor dizer frustrados, deveriam criar e manter um blog melhor que este, mas claro se tiverem capacidade para tal empreitada. Ou então, procurar algo melhor para fazer como procurar um psiquiatra e descobrir qual a origem dos seus problemas, algumas sessões devem resolver.
PQP, não há como colocar alguém para ler os comentários previamente e depois repassá-los a vocês, poupado-lhes desses dissabores?
Luciano
outubro 7th, 2008 às 12:13
Clara, que lindo post. Assim como a sua, minha vida mudou depois de ver a trilogia das cores, sobretudo Bleu. Sempre pensei em um dia ver Preisner aqui no PQP. Obrigado!
outubro 7th, 2008 às 18:04
Luciano,
Mto obrigada pela solidariedade ou, cmo se diz na língua de Preisner, “Solidarność”!
Como somos democratas, não temos “provedor da secção de comentários#, até q enchamos o saco e comecemos a não publicar os comentários desses frustrados.
Pedro,
Eu comecei por amar o “Bleu”,mas acho q hoje em dia amo tb (e mto) o “Rouge”
De nada!
Abraço.
outubro 9th, 2008 às 19:44
Estimada Clara Schumann,
Os elogios a ti dirigidos são todos merecidos.
Quanto ao aprendizado do tango, certamente seria um prazer ajudá-la, não fosse o Atlãntico.