Caros leitores, anunciei Preisner e estou a cumprir com o prometido. Porém, um breve excurso: tal como o meu amigo e colega FDP Bach, ando descontente com certos comentários proferidos no blog; a esses comentários, faço minhas as palavras do nobre colega: a minha colaboração é feita no sentido de divulgar uma paixão que – tal como os meus cinco quatro colegas, já para não mencionar esse grande cão, Blue Dog… – nutro, a música clássica, nas suas vertentes de erudita e contemporânea.
Uma segunda razão está na origem da minha colaboração com este blog: como portuguesa, é sempre bom o motivo que possa comprimir e estreitar os laços de dois povos separados pelo ingente oceano Atlântico. Se é verdade que temos motivos para nos orgulharmos com a receptividade do blog no Brasil – neste momento, contabiliza-se 60.000 acessos, certamente contamos com a presença de muitos bloggers portugueses que também fazem questão de visitar o PQP, dada a sua qualidade. E os links que o PQP ostenta nalguns blogs portugueses também são um cabal e indefectível facto de júbilo.
Recentemente, ouvi uma grande actriz brasileira, Natália Thimberg, afirmar que Brasil e Portugal são um só: Falamos a mesma língua, somos da mesma escola, afirmava a veterana actriz.
Por isso, ilustres visitantes, este trabalho é feito, altruisticamente, em nome de uma paixão, a música, sem nenhum dividendo; tendo em conta esse facto, também os nossos comentários reflectem e reflectirão sempre os nossos afectos pela plêiade de compositores dilectos (ou não), mas não somos engenheiros de almas, como aventava Estaline sobre a missão dos escritores – os nossos escritos não são tecnicistas, mas sempre e apaixonadamente amadores. Disse.
Já falei num ingrediente necessário para se entender a música dos polacos: o misticismo e a religiosidade que caracterizam este povo, não? Preisner não é excepção, mas, por’ora, quero elencar (santo deus, este verbo parece que é de minha propriedade!) alguns dados contextuais, que estão na génese da minha descoberta de Preisner.
Polónia, terra de surpreendentes contrastes: tutelada por duas potências dois blocos, ex aequo, União Soviética e Alemanha (e mesmo hodiernamente, pós-integração na União Europeia, não escamoteemos esse tão impolítico, mas correcto facto!), foi pátria fértil de artistas que adoro, especificamente, no cinema, com Wadja e Kieslowski.
Kieslowski foi uma descoberta dos meus 17 anos, com a sua – hoje – consensual trilogia Bleu, Blanc, Rouge, uma homenagem aos ideais republicanos franceses e que (parte de supremíssima inportância para o público masculino) revelou ou consolidou ícones dramáticos femininos como Juliette Binoche e Irène Jacob (quanto a mim, plástica e dramaticamente superior a Binoche, mas you’re the boss, preclaro público). O impacto desse realizador foi de tal sorte grande na minha pessoa que, recorrendo a um esquema de des-va-lo-ri-za-ção do meu capital de então, adquiri os três filmes, importando os mesmos de França, na defunta versão VHS… estando os mesmos ainda em cartaz!
Z. Preisner consegue, a meu ver, matar “três coelhos com uma só cajadada” (olhem só a subtileza das minhas metáforas, alicerçadas em ditos populares…), com esta obra:
a) Exprimir o sentimento de religiosidade/misticismo que é o ADN do imaginário polaco, lui – même,  – e isso está patente na própria estrutura  e função que preside ao  Requiem;
b) Fazer uma síntese de uma genealogia, de uma brilhante genealogia, da sua genealogia musical polaca e não só, transmitindo para a sua obra a influência flagrante de Gorécki,, visível nas duas versões da Lacrimosa, de Pendérecki – notem bem o violino arrepiante do Offertorium  e até do meu Rasputine musical, Pärt, nos sinos do mesmo Offertorium e ecos da Berliner Messe, em Dies Irae;

c) oferecer um tributo que se nega a tributo a Kieslowski, com a primeira parte, o Requiem per si, - ah, sim, o piano e a flauta de Kai Kairos a evocar a dita trilogia – e a segunda parte, “Life”, a assegurar os lçaos indestrutíveis  (ou  parceria indestrutível) entre os dois amigos.

Z.Preisner (1955 - ) – Requiem for my friend, Rewakowicz, Kasprzyk, Sinfonia Varsovia, Varsóvia: Erato, 1999.

1. Part One Requem: Officium
2. Part One Requem: Kyrie Eleison
3. Part One Requem: Dies Irae
4. Part One Requem: Offertorium
5. Part One Requem: Sanctus
6. Part One Requem: Agnus Dei
7. Part One Requem: Lux Aeterna
8. Part One Requem: Lacrimosa
9. Part One Requem: Epitaphium
10. Part Two Life: Meeting
11. Part Two Life: Discovering The World
12. Part Two Life: Love
13. Part Two Life: Kai Kairos
14. Part Two Life: Ascende Huc
15. Part Two Life: Veni Et Vidi
16. Part Two Life: Qui Erat Et Qui Est
17. Part Two Life: Lacrimosa - Day Of Tears
18. Part Two Life: Prayer

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Clara Schumann