Esta obra tem muitos significados marcantes para mim:

* Seus primeiros compassos já me conquistaram quando comprei o LP nos anos 60 e, até hoje, sempre me produzem uma sensação indescritível. Hipnótica? Arrebatadora? De êxtase? O mesmo me acontece quando ouço os primeiros compassos da Paixão Segundo São Mateus, de Bach. Fiquei feliz por descobrir que não estou só neste sentimento quando li um comentário do nosso jovem amigo Gilberto Agostinho: “O primeiro compasso (o primeiro compasso!) da Paixão Segundo São Mateus é capaz de me arrebatar, e ali já se encontra toda a profundidade que esta obra vai carregar durante duas horas.” A íntegra do comentário está aqui.

* É uma obra de surpreendente beleza musical, de profunda inspiração. Reunindo somente duas partes da liturgia católica, o Kyrie e o Gloria, aproxima-se formalmente das Missas de Bach. Seu pungente e doloroso 10º movimento, Qui sedes ad dexteram Patris, miserere nobis (Tu que sentas à direita do Pai, tende piedade de nós), consegue exprimir musicalmente a essência da cultura judaico-cristã, dando um tratamento escatológico, no sentido não vulgar da palavra, a este movimento. O Coro da Associação de Canto Coral e a Orquestra Sinfônica Brasileira conseguiram captar este sentimento, acompanhando a excelente interpretação do tenor Hermelindo Castelo Branco. É o mais expressivo Qui sedes que meus ouvidos conhecem.

* A presente postagem é o meu trabalho de 2 anos de identificação, de montagem e de digitalização. A gravação original desta peça em 1958 foi realizada com recursos muito precários que comprometeram sua qualidade. A montagem do seu “master”, o único que se conhece, deve ter sido feita por pessoas alheias à música, principalmente a sacra. Para ser bem claro, foi feita nas coxas. Daí resultou um “master” de péssima qualidade auditiva, faixas trocadas ou unidas numa só e partes de um movimento que foram misturadas com partes do movimento seguinte. Para a realização deste trabalho, foram utlizados 4 exemplares do primeiro LP lançado em 1967 pelo selo Festa; 3 exemplares do segundo LP, lançado em 1976 pela Philips e 1 CD de reedição do original do selo Festa, de 1999. Foram selecionadas as melhores faixas de cada um e procedeu-se à identificação e montagem de cada movimento utilizando-se um missal em latim e muita pesquisa. A digitalização foi feita em um iMac 2.66 com o software Audacity, licença GPL, e uma “vitrola” Aiwa PX-E850. Procurou-se utilizar a menor quantidade de filtros possível para não comprometer a qualidade do som final, motivo pelo qual ainda se pode ouvir alguns ruídos, principalmente na primeira faixa. O áudio resultante não tem a qualidade superior que estamos acostumados a ouvir, mas a beleza da obra supera tudo isso. Espero que apreciem, pois esta é a única apresentação mais dígna desta surpreendente obra, coisa que você somente encontra aqui no PQPBach!

Missa em Mí Bemol Maior No. 1, de 1782
01. Kyrie: Kyrie Eleison
02. Kyrie: Christe Eleison
03. Kyrie: Kyrie Eleison
04. Gloria: Gloria in excelsis Deo et in terra pax hominibus bonæ voluntatis
05. Gloria: Laudamus te. Benedicimus te. Adoramus te. Glorificamus te
06. Gloria: Gratias agimus tibi propter magnam gloriam tuam
07. Gloria: Domine Deus, Rex cælestis, Deus Pater omnipotens, Domine Fili unigenite
08. Gloria: Qui tollis peccata mundi, miserere nobis
09. Gloria: Suscipe deprecationem nostram
10. Gloria: Qui sedes ad dexteram Patris, miserere nobis
11. Gloria: Quoniam tu solus Sanctus. Tu solus Dominus. Tu solus Altissimus, Jesu Christe
12. Gloria: Cum Sancto Spiritu in gloria Dei Patris. Amen

Missa em Mi Bemol Maior No. 1 - Selo PQPBach - 2009
José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746-1805)
Gravação realizada ao vivo, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1958
Lia Salgado, soprano
Carmen Pimentel, contralto
Hermelindo Castelo Branco, tenor
Jorge Bailly, baixo
Associação de Canto Coral, diretora Cleofe Person de Mattos
Orquestra Sinfônica Brasileira, regente Edoardo de Guarnieri

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Avicenna