Tropeçava em latas de lixo quando encontrei a capa abaixo, e imediatamente me vi cheio de interrogações.

Joni Mitchell? Mingus? Que diabos. Ou, que diabos Mitchell está fazendo com Mingus? Por aí já podem notar minha desconfiança em relação à cantora. Mas eu prefiro ficar surdo a desistir antes de tentar. E lá fui, farejando, descobrir que Joni foi criticadíssima à época do disco, 1979; apontaram-na como decadente, esnobe por tentar dar verve ao pop, tentando pegar uma carona na então recente morte do underdog.

Mas quando se cava mais um pouco, se descobre que Mingus havia chamado Joni para ajudá-lo a musicar o Four Quartets de T. S. Eliot alguns meses antes, o baixista já imobilizado pela doença que o mataria em seguida. E que, fruto disso, cresceu amizade - e mesmo Joni pôde sair de um bloqueio criativo que a consumia durante longo tempo. Donde o disco-homenagem, que ela não imaginava que seria póstumo. Tanto que Mingus só não chegou a escutar uma das faixas, a primeira, composição totalmente dela - ao invés das outras, versões de Mingus, com letras por Joni escritas, e abençoadas pelo mestre.

Não apenas na aura criada pelo duo; Joni, que não era boba, cercou-se de um pequeno grupo de pilares do jazz para gravar o álbum. Em Mingus, a base é a do Weather Report - confira a nominata logo abaixo. (Ame ou odeie o fusion, todos sabemos dos pedigrees.) Aqui só adianto que é um dos mais brilhantes, e por vezes experimental, trabalhos de Jaco Pastorius. Seu baixo é o condutor dessas faixas de um jazz relaxante, espaçado, cheio de respiros - e sim, sob bela e macia voz, bem colocada, discreta. Os detratores estavam errados. Ou com ciúmes. Ainda: um atrativo a mais são os “raps” que entremeiam as canções - vinhetas com gravações de Mingus em conversas, cenas cotidianas, até um scat em duo com Joni. (O que, inclusive, faz deste um disco curto, de apenas seis músicas.)

Antes das fichas técnicas e dos arquivos, um desvio na conversa. Encontrei Joni ao mesmo tempo em que estou revendo aquele que Mingus considerou, moribundo seu melhor trabalho: Let My Children Hear Music, de 1971. Não resisti e trouxe uma postagem dupla. Na verdade, no momento em que escrevo isso penso que gostaria de assinar todas as minhas postagens com “já ouviu Hobo Ho hoje?” A orquestra vanguardista de Mingus toma de assalto e exige tempo para que se ouça outra coisa além dele, depois que se entra no seu mundo. É onde a complexidade encontra o savoir-vivre de maneira mais plena. Caos de bon-vivant (sem querer soar como um francófono pedante. mas os franceses entendem disso, não?). No politeísmo do jazz, Miles exige cultos, Trane requer transes, Mingus demanda festins. Banquetes instintivos como os de Adderley ou Coleman - mas de uma natureza mais selvagem, sexual. Mingus, talvez por maestro, fala com o ouvinte de forma mais direta. Quase soco na boca, às vezes, barulhento, cacófano. Não me admira que tenha dedicado esse disco às crianças. É, mais ou menos, como foi a sua infância.

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Joni Mitchell - Mingus
Joni Mitchell: guitar, vocals
Jaco Pastorius: bass
Wayne Shorter: soprano saxophone
Herbie Hancock: elec piano
Peter Erskine: drums
Don Alias: congas
Emil Richards: percussion

produzido por Joni Mitchell para a Asylum

download - 48MB
01 Happy Birthday 1975 (Rap) 0′57
02 God Must Be A Boogie Man (Mitchell) 4′35
03 Funeral (Rap) 1′07
04 A Chair in the Sky (Mingus) 6′42
05 The Wolf That Lives in Lindsey (Mingus) 6′35
06 I’s a Muggin’ (Rap) 0′07
07 Sweet Sucker Dance (Mingus) 8′04
08 Coin in the Pocket (Rap) 0′11
09 The Dry Cleaner from Des Moines (Mingus) 3′21
10 Lucky (Rap) 0′04
11 Goodbye Pork Pie Hat (Mingus) 5′37

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Charles Mingus - Let My Children Hear Music
Produzido por Teo Macero para a Columbia

The exact personnel is sketchy, largely due to contractual issues, several arrangers were imported to paste things together, making the true authorship of some passages questionable, and Macero (as he did with various Miles Davis projects) edited freely and sometimes noticeably. The listener will happily put aside all quibbles, however, when the music is heard.
— Esse é trecho da resenha do AllMusic. Se quiser, siga este link para ler o restante e ver uma descrição detalhada, e interminável, dos músicos envolvidos nas gravações.

download aqui - 111MB
01 The Shoes of the Fisherman’s Wife Are Some Jive Ass Slippers 9′34
02 Adagio ma Non Troppo 8′22
03 Don’t Be Afraid, the Clown’s Afraid Too 9′26
04 Taurus in the Arena of Life 4′17
05 Hobo Ho 10′07
06 The Chill of Death 7′38
07 The I of Hurricane Sue 10′09

Boa audição!
Blue Dog