(…)Está a menina* sentada ao cravo, tão novinha, ainda não fez nove anos e já grandes responsabilidades lhe pesam sobre a redonda cabeça, aprender a colocar os dedinhos curtos nas teclas certas (…) e vem de Londres contratado Domenico Scarlatti. À lição assistem as majestades, umas trinta pessoas, (…). Il maestro vai corrigindo a digitação, fá, lá,dó, fá dó lá, sua alteza apura-se muito, morde o beicinho, nisto não se distingue de qualquer criança, em paço nascida ou noutras passagens, a mãe disfarça uma certa impaciência, o pai está real e severo, só as mulheres, tenros coraçãoes, se deixam embalar pela música, e pela menina, mesmo tocando tão mal,(…).

Trinta e cinco anos é(…) a minha idade , mas nasci em Nápoles, e Blimunda, que idade tem, Tenho vinte e oito anos,(…) e isto dizendo levantou Blimunda os olhos, quase brancos na meia penumbra da abegoaria, e Domenico Scarlatti ouviu ressoar dentro de si a corda mais grave de uma harpa.(…)

José Saramago (1922 - ) – Memorial do Convento, Lisboa: editorial Caminho, 1994, pp.166-176.

*D. Maria Bárbara de Bragança, futura rainha de Espanha (1711-1748), mecenas musical, apadrinhando Scarlatti e Farinelli.

Clara Schumann