Este é um álbum que me agrada por demais, pois ele nos dá uma boa amostra da literatura pianística de Villa-Lobos. O cd apresenta peças, como a empolgante e técnica Prole do Bebê Nº 1, o lírico Prelúdio das Bachianas Brasileiras Nº 4, as singelas Três Marias e a grande obra-prima para piano de Villa-Lobos, o monumental Rudepoema, tudo isso nas mãos do competentíssimo Nelson Freire.

As Obras

A Prole do Bebê Nº 1, é um marco importante na biografia de Villa-Lobos: Arthur Rubinstein, o grande pianista polonês, encantou-se por essa coleção de oito peças inspiradas basicamente em canções folclóricas: passou a tocá-la por todo o mundo (sobretudo o Polichinelo, que ele gostava de dar como extra): e foi assim que a fama de Villa-Lobos transpôs as nossas fronteiras.

Nas mãos de Nelson Freire, essa primeira Prole aparece, aqui, em toda a sua concentrada poesia e colorido, Villa-Lobos, nesta série, ainda está próximo do impressionismo francês (o que não aconteceria com a segunda Prole, de 1921).

A escrita é a mais transparente, exige um domínio absoluto da técnica. Mas, por baixo desses cristais franceses, lá está o Villa profundo, cantando logo na Boneca de Louça, que abre a série. A Boenca de Massa, que se segue, é como um rio que corre, infinito, cheio de sombras e luzes, uma verdadeira criação em termos de linguagem pianística, tanto mais extraordinária quanto Villa-Lobos nunca foi um grande pianista, muito mais ligado, como intérprete, ao violão e ao violoncelo.

Já se disse que Villa-Lobos, é um compositor caudaloso que não consegue controlar a sua própria produção. Pois ei-lo aqui, no Prelúdio das Bachianas Brasileiras Nº 4, trabalhando só o essencial: uma linha melódica muito pura, de fragrância realmente bachiana, e uma linha de baixo. É quase só isso; e também uma regularidade absoluta, que contribui para a atmosfera de paz transcendente, Nelson Freire sublinha essa grandeza clássica através do seu fraseado, e da mais cuidadosa gradação dinâmica.

“Essencial” é também o Villa-Lobos de As Três Marias, três pequenas peças da sua maturidade, onde ele se compraz em reproduzir a luz álgida das estrelas, trabalhando na região aguda do piano. É como que uma prefiguração das Cartas Celestes de Almeida Prado, num clima de depuração completa. Este pequeno tríptico foi escrito em 1939 a pedido de Edgar Varèse, e estreado por José Vieira Brandão, no mesmo ano, no Rio de Janeiro.

Com o Rudepoema, escrito entre 1921 e 1926, chegamos finalmente ao Villa-Lobos torrencial, ciclópico, numa peça em que ele se propunha a fazer o retrato musical de Arthur Rubinstein. Não se sabe se Rubinstein se reconheceu no retrato. Talvez seja mais próprio falar de um auto-retrato do Villa-Lobos irredutível a formas, a limitações, às vezes selvático, refletindo um temperamento fortíssimo, uma inspiração vulcânica. Poucas peças existem que coloquem tantas exigências ao intérprete, não só de técnica mas, sobretudo, de discernimento para caminhar no meio desta selva. A versão de Nelson Freire é um ótimo guia para essas complexidades, um monumento ao compositor e ao intérprete.

Fonte: Encarte do cd - Luiz Paulo Horta

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Nelson Freire interpreta Villa-Lobos

A Prole do Bebê Nº 1
01 Branquinha - A Boneca de Louça (2:17)
02 Moreninha - A Boneca de Massa (1:28)
03 Caboclinha - A Boneca de Barro (2:22)
04 Mulatinha - A Boneca de Borracha (1:46)
05 Negrinha - A Boneca de Pão (1:07)
06 A Pobrezinha - A Boneca de Trapo (1:37)
07 O Polichinelo (1:21)
08 Bruxa - A Boneca de Pano (2:25)

09 Prelúdio - Bachianas Brasileiras Nº 4 (3:38)

10 As Três Marias (3:23)

11 Rudepoema (17:58)

Nelson Freire, piano

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Marcelo Stravinsky